No relato da criação em Gênesis 2:21-22, encontramos uma das passagens mais conhecidas das Escrituras: a formação da mulher a partir do homem. O texto diz que Deus fez cair um sono profundo sobre o homem, tomou uma de suas “costelas” e, a partir dela, formou a mulher. Tradicionalmente, essa passagem tem sido entendida como a criação de Eva a partir de uma costela literal de Adão.
No entanto, ao observar o texto original em hebraico, a palavra utilizada é “tsela” (צֵלָע), que pode ser traduzida não apenas como “costela”, mas também como “lado” ou “parte lateral”. Esse mesmo termo é usado em outras partes da Bíblia para se referir aos lados do tabernáculo, indicando que seu significado pode ser mais amplo do que um único osso específico.
Essa compreensão abre espaço para uma reflexão mais profunda sobre o propósito do texto. Se entendermos “tsela” como “lado”, o foco deixa de ser anatômico e passa a ser relacional. A mulher não é apresentada como alguém inferior ou superior ao homem, mas como alguém que vem do seu lado, indicando proximidade, igualdade e companheirismo. Essa ideia é reforçada quando o homem declara: “Esta é agora osso dos meus ossos e carne da minha carne” (Gênesis 2:23).
Além disso, o próprio texto bíblico aponta para a união entre homem e mulher como um princípio fundamental: “Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne” (Gênesis 2:24). Essa união não é baseada em hierarquia, mas em unidade e complementaridade.
Portanto, seja entendida como “costela” ou “lado”, a narrativa não perde seu valor, mas ganha profundidade. Ela revela não apenas a origem da mulher, mas também o propósito do relacionamento humano segundo Deus: uma relação de unidade, respeito e intimidade, estabelecida desde o princípio da criação.



